1º Encontro com a Cultura
"Quem é?" Perguntou o Paulo, dando um passo gigante até a porta.
"Sou do Hotel, pode deixar-me entrar"
Parecia mais uma afirmação do que uma pergunta. Pois era difícil distinguir por causa do sotaque. O Paulo hesitou antes de abrir a porta, ele já sabia que mais cedo ou mais tarde alguém aparecia para vender 'produto'. O livro dele explicava tudo e tinha lhe transformado em Guru das Vendas de Haxixe em Marrocos. Pelo menos ele achava que sim e ele sabia que mal comprássemos, tínhamos de sair do hotel. Normalmente quem vendia estava metido com a policia e informava-lhes a seguir e a policia vinha buscar o Haxixe, e quem comprou ficava sem dinheiro e sem haxixe!
O Paulo abriu a porta e um jovem muito tímido estava lá fora, devia de ter a mesma idade que nós. Convidámos-lhe a entrar e ele sentou-se na cama, não havia sofá. Ele não disse nada e parecia mais nervoso do que nós. Perguntamos então o que é que se passava lá fora.
" É Ramadão, não podemos beber nem comer de dia só a noite quando o sol descer, durante um mês."
"Então para outras palavras, é uma grande festa?" sorriu Paulo "És muçulmano então?"
"Sou" respondeu o rapaz com uma certa convicção, " e é uma altura muito difícil para nós, temos de trabalhar todo dia sem beber e comer."
Seguindo "O Livro sagrado de Marrocos" do Paulo, era uma altura muito boa para visitar um pais muçulmano, já que era o festival mais sagrado do ano, e que o povo tinha que se portar muito bem durante o mês. As desvantagens eram que muitas lojas fechavam, e a noite era impossível dormir. Admiramos a fé deste rapaz.
"Então não bebes álcool?" Perguntou o Paulo.
"Não é permitido. Fumar haxixe também não é permitido, mas se quiser posso arranjar um pouco.."
"Nah..." disse Paulo sabendo que não era boa ideia. Interessante era como não era permitido fumar mas podia vender. "Gostaria era de um bocado de laranja para juntar a esta Vodka, consegues arranjar?" Ele mostrou a garrafa de Vodka, e fez mais um pedido. "Ah pois e tabaco?"
Ele olhou para mim.
"Queres alguma coisa?"
"Sim, pode ser uma coca cola...faz favor"
O rapaz disse que não lhe dava trabalho nenhum, dêmos lhe o dinheiro e lá foi ele. Em menos de nada voltou com as coisas que pedimos.
Paulo despejou um copo de vodka com laranja e ofereceu-lhe, mas ele recusou claro, já que tinha dito que era Muçulmano e tudo. Não sei o que é que o Paulo tinha na cabeça!
Conversamos com o rapaz, e ele contou-nos como Ramadão era difícil, e na verdade não parecia muito fácil, não. Ter de trabalhar todo dia com o calor sem beber ou comer! Está bem a noite podia mas era preciso uma certa disciplina, e tivemos uma grande admiração para este rapaz. O facto dele ser novo como nós e no entanto acatar tanto a religião dele, e não ser levado pelos outros; nomeadamente pelo Paulo que lhe ofereceu álcool. Ele parecia um rapaz bom.
Já estávamos com fome e perguntamos o rapaz onde podíamos ir comer. Felizmente havia um restaurante muito perto, eu estava com um pouco de paranóia e não queria passear muito pela cidade.
O jantar foi muito bom, nem sei o que comemos. Era uma espécie de kebab com um molho qualquer, e muito saboroso. A seguir de jantar tivemos que ir dormir, e nem sei como com tanto barulho de trompetes e gente na rua a cantar e conversar. No dia seguinte tínhamos de ir trocar dinheiro e seguir caminho a Chefchauen, nas montanhas. Mal a minha cabeça tocou na almofada adormeci.
Cedo de manhã acordei e não sabia bem por quê. A festa parecia ter acabado, e já não se ouvia nada nas rua, ate um forte e poderoso som penetrar o silêncio como se fosse a voz do próprio Deus a chamar os crentes à oração.
A chamada de mesquita.
Por alem de estranha, a chamada trazia outra coisa com ela, e mesmo que não intendia o que a voz dizia, sentia-me reconfortada e deixei-me logo adormecer outra vez.

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