segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Capítulo 2

Terra Firma



Uma vez dentro do Hotel, já dava para respirar.

E bem fundo.

"Que foi aquilo?" Perguntou o Paulo muito surpreendido. " O Pedro tinha me dito que eram uns putos quais queres com jalabas!"


O Paulo tinha razão, essa gente não era nada o que esperamos. Blusões de cabedal, cicatrizes na cara; Parecia mais Brooklyn que Tânger.


"Ainda bem que vi aquele mocinho, se não..."


"Documentos faz favor"


O recepcionista ficou de mão estendida. Quase que tínhamos esquecido que estávamos a fazer o check-in. Entregamos os documentos necessários; mal podíamos esperar para ir ao nosso quarto descansar. Devia de ser uns 20horas, mas parecia muito mais tarde.


Chave na mão fomos acompanhados para o nosso quarto. A chave não parecia caber na fechadura, mas depois de algumas manobras jeitosas conseguimos. O quarto tinha três camas e uma mesa, não cabia mais nada. Não era de luxe mas para 4 euros por noite não se podia queixar.

Literalmente...afinal quem dava ouvidos?

A casa de banho era partilhada, que não inspirava muita confiança mas afinal era só para uma noite. Pois amanhã íamos seguir viagem.


Estava a escurecer e as ruas estavam a encher de gente. Faziam cada vez mais barulho. Fui a janela observar um pouco. Havia mulheres e crianças, homens com balões e algumas pessoas a montarem bancadas, cheias de gulosemas e ropas.

Perecia que ia haver uma feira.

"Paulo, a rua está cheia de gente, Que se passa aqui?" perguntei

Paulo estava deitado em cima da cama a ler o livro.


"Olha diz aqui...que é Ramadão" Ele começou a ler em voz alta
"...Festival religioso...durante qual os crentes abstêm de comida, bebida e sexo...durante o dia..mas...que festejam a noite...e fazem tudo o que não podem de dia..."


"parece-me bem..." disse ele sorrindo


Começamos a rir, mas fomos interrompidos logo por alguém a bater a porta.


"Serviço de Quartos!"


" Deve ser alguém a querer vender Hash" disse Paulo apróximando a porta muito devagar como um agente secreto.
"mas o melhor é não comprar logo, pois vamos a Chefchoaen amanhã, não vale pena..."
disse a sorrir,
"pois vou comprar lá..é mais barato"

Pois ele tinha já tudo organizado na cabeçinha dele.

Ele abriu a porta.
Um jovem muito bem educado pediu licença para entrar. Ele devia ter a nossa idade; por volta das 19 ou 20 anos.

Com muito cuidado ele tirou um pano do bolso.


"Tenho Hash bom aqui"


O Paulo olhou me e sorriu como quem diz ' sou bom, não sou?'


"Não queremos obrigado, mas podes entrar e sentar um pouco, se quiseres" Paulo gesticulou em sentido da cama, não havia sofá.


O jovem sentou-se em cima da cama sorrindo, transmitindo um ar muito simpático. Paulo perguntou-lhe sobre as festividades.


"É muito difícil" Disse o jovem "Temos que trabalhar durante o dia, sem beber água ou comer, é muito difícil..."

Ele abanou a cabeça, como se sentisse algum sofrimento.


"És muçulmano?"


"Sou.." disse com muita firmeza "rezo cinco vezes por dia"

"Mesmo durante a noite?" Perguntou o Paulo

"Sim temeos que levantar da cama e ir rezar a mesquita"

"Eu cá não sei se era capaz de fazer isso" sorriu Paulo


Entretandto ficamos muito admirados com a fé deste rapaz. No ocidente, ninguém mostrava fé em nada e este jovem parecia tão envolvido na sua religião. Ele parecia gostar de ser muçulmano, e era tímido e humilde. O contrário dos jovens na praça.


"Desculpa de pedir, mas não temos tabaco e queríamos algo para juntar ao nosso vodka..." disse Paulo a tirar a garrafa do nosso saco"Duty Free"


"Costumas beber?"


"Não posso beber..."


"Nada?!" Exclamou Paulo


"..mas se quiser posso ir comprar as coisas que queres" disse o rapaz sorrindo como se ele tivesse aí só para nos agradar.

Paulo entregou-lhe o dinheiro e o rapaz saiu...

Ficamos a ver o inicio das festividades da janela. A praça enchia ainda mais de gente de toda sorte. Os gritos de crianças e o barulho das trompetes enchiam a noite.

O Americano do barco passou por baixo da janela, a passear pela rua sozinho, o Paulo chamou-o e o Americano olhou-nos.

"Boa noite"

Ele não conhecer nos e o Paulo explicou que ele estava no barco connosco.
"Ah agora já me lembro " disse "não vão passear? Está tudo tão lindo.."

O Paulo bem apetecia mas eu não, estava com medo. Imaginava coisas maradas como Ali baba e os quarenta ladrões a fazer nos uma embuscada. Pois estava bastante paranóica.

O Americano fez nos adeus e continuo a passear. Na verdade parece que eu não me sentia lá muito segura com o Paulo, não sabia como ele podia aguentar um confronto inesperado. Pois podia ser um pouco agressivo, o que eu achava muito inapropriado neste país.

O rapaz voltou logo com as nossas coisas. Laranja para beber com o Vodka e o tabaco.

Já estávamos a ficar com fome e perguntamos-lhe se havia um restaurante aí perto. Por acaso havia um mesmo na frente do Hotel, no tal beco da entrada. Agradecemos o rapaz e fomos comer então; acho que o Paulo deu-lhe um gorjeta mas já não me lembro muito bem.

No restaurante pedimos umas bolinhas de carne num molho meio picante, pareciam almôndegas mas sabiam muito melhor. E logo a seguir da refeição o sono começou a apertar e achamos melhor ir dormir. Pois no outro dia tínhamos que trocar mais dinheiro, conseguimos trocar algum no Hotel mas íamos precisar de mais ainda.

Próxima paragem, Chefchauen

Voltamos o Hotel, e depois de andar a voltas com a chave quase pre-histórico, lá conseguimos entrar no quarto.
Bebemos um copo e vodka, que não gostei nada, nem sequer bebi tudo, e fomos dormir.

Na madrugada acordei com a chamada da mesquita. Não tinha bem a certeza o que foi que me tinha acordado. Já ninguem andava nas ruas, e não se ouvia barulho nenhum até uma voz poderosa cortou de novo o silêncio. Quase que parecia o próprio Deus!

Foi um pouco inquetante.


'Ah foi a Mesquita' pensei enquanto adormeci de novo...



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